Artigo de opinião: "TRAGA-ME UM COPO D'ÁGUA, TENHO SEDE... E ESSA SEDE PODE ME MATAR."

Quando um professor passa a temer um simples copo d'água, já não estamos diante apenas de um episódio de violência. Estamos diante de uma escola que pede socorro e de uma sociedade que precisa reaprender a educar.

Notícias | Educação

04 Julho, 2026

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Artigo de opinião:


Há versos que parecem atravessar o tempo porque sempre encontram um novo significado. O refrão imortalizado por Gilberto Gil — "Traga-me um copo d'água, tenho sede... e essa sede pode me matar" — nunca me pareceu tão atual.

Recentemente, uma professora recebeu um copo d'água. Dentro dele, um caco de vidro. A notícia chocou o país. Mas talvez o mais assustador seja perceber que o problema não começou quando o vidro caiu dentro do copo. Ele começou muito antes.


   Por Gil Tazzi- Filosofia- Psicanálise e Educação 

Começou quando passamos a confundir autoridade com autoritarismo e respeito com submissão. Quando educar deixou de ser responsabilidade compartilhada entre família, escola e sociedade. Quando o professor passou a ser cobrado como protagonista dos resultados, mas tratado como coadjuvante nas decisões. Quando ensinar deixou de ser apenas ensinar e passou a significar, ao mesmo tempo, acolher, mediar conflitos, suprir ausências familiares, resolver problemas emocionais, preencher formulários, cumprir metas e, ainda assim, justificar por que os resultados não foram alcançados.

O CACO DE VIDRO APENAS REVELOU UMA RACHADURA QUE JÁ EXISTIA. É EVIDENTE

que o estudante precisa ser responsabilizado. Um ato dessa natureza ultrapassa qualquer conceito de indisciplina. Colocar em risco a vida de alguém não pode ser tratado como uma brincadeira de mau gosto nem como uma simples travessura escolar. A responsabilização é necessária porque educar também significa ensinar que toda escolha produz consequências.

Mas responsabilizar não basta. É preciso perguntar como um jovem chega ao ponto de considerar aceitável oferecer um copo d'água que pode ferir ou matar alguém. Essa pergunta não busca justificar a violência. Busca impedir que ela se repita.

Entretanto, há uma pergunta ainda mais urgente, e curiosamente muito menos feita.: 

QUEM CUIDA DA PROFESSORA?

Quem acolhe a profissional que talvez nunca mais consiga aceitar um copo d'água oferecido por um aluno sem que o medo atravesse seus pensamentos? Quem acompanha a educadora que voltará à mesma sala, encontrará os mesmos corredores e tentará ensinar enquanto convive com a lembrança de que sua vida esteve em risco exatamente no lugar onde deveria sentir-se protegida?

Traumas não terminam quando termina a ocorrência. Eles permanecem na ansiedade, na hipervigilância, na insônia, na perda da confiança, na sensação permanente de vulnerabilidade. Permanecem quando a porta da sala se fecha e o professor precisa esconder dos alunos um medo que ninguém vê.

Falamos muito sobre a aprendizagem das crianças. Falamos pouco sobre o adoecimento de quem ensina. Ansiedade, depressão, síndrome de burnout e afastamentos por sofrimento psíquico tornaram-se parte silenciosa do cotidiano de milhares de docentes. Muitos

continuam em sala de aula porque amam a profissão. Outros permanecem porque não podem abandoná-la. Alguns, infelizmente, já não conseguem permanecer.

Quando um professor adoece, não perde apenas ele. Perde o aluno, que deixa de encontrar um educador plenamente disponível. Perde a escola, que se torna menos humana.

Perde a sociedade, que enfraquece exatamente aqueles que têm a missão de formar as próximas gerações. Também é preciso olhar para a família. Seria injusto afirmar que todas são omissas. Há famílias presentes, comprometidas e parceiras da escola. Mas também é impossível ignorar que cresce o número de situações em que limites, responsabilidade e respeito deixam de ser ensinados em casa e acabam sendo integralmente transferidos para a escola.

A escola pode ensinar matemática, literatura e ciências. Pode ensinar convivência. Mas não pode substituir a educação moral e afetiva que nasce nas relações familiares. Quando família e escola deixam de caminhar juntas, ambas fracassam. E quem paga essa conta são as crianças, os adolescentes e os próprios professores. Talvez o episódio do copo d'água revele uma verdade incômoda sobre nosso tempo.

Estamos aprendendo, e isso é importante, a compreender as causas da violência. Mas estamos desaprendendo a cuidar de quem sofreu a violência. Explicamos o agressor. Esquecemos a vítima. E uma sociedade que perde a capacidade de acolher suas vítimas corre o risco de banalizar a própria violência.

No fim, aquele caco de vidro não quebrou apenas a confiança de uma professora. Quebrou uma ilusão coletiva de que a escola continua sendo, por si só, um lugar seguro. A educação não está em crise porque existem alunos difíceis. Ela está em crise quando professores têm medo de ensinar, famílias deixam de educar, o sistema deixa de proteger quem trabalha e a sociedade passa a considerar tudo isso apenas mais uma notícia.

Talvez ainda ofereçam um copo d'água àquela professora. Ela continuará tendo sede. Mas dificilmente voltará a beber água da mesma maneira. Porque o que realmente foi ferido naquele dia não foi um copo, foi a confiança. E uma educação sem confiança jamais conseguirá saciar a sede de futuro de uma sociedade.

"Que nunca falte água à sede dos professores. E que nunca mais lhes falte a confiança para bebê-la."

Por Gil Tazzi- Filosofia- Psicanálise e Educaçã

Vanderlei Gontijo

vanderlei@patos1.com.br




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