Artigo de opinião: "TRAGA-ME UM COPO D'ÁGUA, TENHO SEDE... E ESSA SEDE PODE ME MATAR."
Quando um professor passa a temer um simples copo d'água, já não estamos diante apenas de um episódio de violência. Estamos diante de uma escola que pede socorro e de uma sociedade que precisa reaprender a educar.
Há versos que parecem
atravessar o tempo porque sempre encontram um novo significado. O refrão
imortalizado por Gilberto Gil — "Traga-me um copo d'água, tenho sede... e
essa sede pode me matar" — nunca me pareceu tão atual.
Recentemente, uma professora
recebeu um copo d'água. Dentro dele, um caco de vidro. A notícia chocou o país.
Mas talvez o mais assustador seja perceber que o problema não começou quando o
vidro caiu dentro do copo. Ele começou muito antes.
Por Gil Tazzi- Filosofia- Psicanálise e Educação
Começou quando passamos a confundir autoridade com autoritarismo e respeito com submissão. Quando educar deixou de ser responsabilidade compartilhada entre família, escola e sociedade. Quando o professor passou a ser cobrado como protagonista dos resultados, mas tratado como coadjuvante nas decisões. Quando ensinar deixou de ser apenas ensinar e passou a significar, ao mesmo tempo, acolher, mediar conflitos, suprir ausências familiares, resolver problemas emocionais, preencher formulários, cumprir metas e, ainda assim, justificar por que os resultados não foram alcançados.
O CACO DE VIDRO APENAS REVELOU UMA RACHADURA QUE JÁ EXISTIA. É EVIDENTE
que o estudante precisa ser
responsabilizado. Um ato dessa natureza ultrapassa qualquer conceito de
indisciplina. Colocar em risco a vida de alguém não pode ser tratado como uma
brincadeira de mau gosto nem como uma simples travessura escolar. A responsabilização
é necessária porque educar também significa ensinar que toda escolha produz
consequências.
Mas responsabilizar não
basta. É preciso perguntar como um jovem chega ao ponto de considerar aceitável
oferecer um copo d'água que pode ferir ou matar alguém. Essa pergunta não busca
justificar a violência. Busca impedir que ela se repita.
Entretanto, há uma pergunta ainda mais urgente, e curiosamente muito menos feita.:
QUEM CUIDA DA
PROFESSORA?
Quem acolhe a profissional
que talvez nunca mais consiga aceitar um copo d'água oferecido por um aluno sem
que o medo atravesse seus pensamentos? Quem acompanha a educadora que voltará à
mesma sala, encontrará os mesmos corredores e tentará ensinar enquanto convive
com a lembrança de que sua vida esteve em risco exatamente no lugar onde
deveria sentir-se protegida?
Traumas não terminam quando
termina a ocorrência. Eles permanecem na ansiedade, na hipervigilância, na
insônia, na perda da confiança, na sensação permanente de vulnerabilidade.
Permanecem quando a porta da sala se fecha e o professor precisa esconder dos
alunos um medo que ninguém vê.
Falamos muito sobre a aprendizagem das crianças. Falamos pouco sobre o adoecimento de quem ensina. Ansiedade, depressão, síndrome de burnout e afastamentos por sofrimento psíquico tornaram-se parte silenciosa do cotidiano de milhares de docentes. Muitos
continuam em sala de aula
porque amam a profissão. Outros permanecem porque não podem abandoná-la.
Alguns, infelizmente, já não conseguem permanecer.
Quando um professor adoece,
não perde apenas ele. Perde o aluno, que deixa de encontrar um educador
plenamente disponível. Perde a escola, que se torna menos humana.
Perde a sociedade, que
enfraquece exatamente aqueles que têm a missão de formar as próximas gerações.
Também é preciso olhar para a família. Seria injusto afirmar que todas são
omissas. Há famílias presentes, comprometidas e parceiras da escola. Mas também
é impossível ignorar que cresce o número de situações em que limites,
responsabilidade e respeito deixam de ser ensinados em casa e acabam sendo
integralmente transferidos para a escola.
A escola pode ensinar
matemática, literatura e ciências. Pode ensinar convivência. Mas não pode
substituir a educação moral e afetiva que nasce nas relações familiares. Quando
família e escola deixam de caminhar juntas, ambas fracassam. E quem paga essa conta
são as crianças, os adolescentes e os próprios professores. Talvez o episódio
do copo d'água revele uma verdade incômoda sobre nosso tempo.
Estamos aprendendo, e isso é
importante, a compreender as causas da violência. Mas estamos desaprendendo a
cuidar de quem sofreu a violência. Explicamos o agressor. Esquecemos a vítima.
E uma sociedade que perde a capacidade de acolher suas vítimas corre o risco de
banalizar a própria violência.
No fim, aquele caco de vidro
não quebrou apenas a confiança de uma professora. Quebrou uma ilusão coletiva
de que a escola continua sendo, por si só, um lugar seguro. A educação não está
em crise porque existem alunos difíceis. Ela está em crise quando professores
têm medo de ensinar, famílias deixam de educar, o sistema deixa de proteger
quem trabalha e a sociedade passa a considerar tudo isso apenas mais uma
notícia.
Talvez ainda ofereçam um
copo d'água àquela professora. Ela continuará tendo sede. Mas dificilmente
voltará a beber água da mesma maneira. Porque o que realmente foi ferido
naquele dia não foi um copo, foi a confiança. E uma educação sem confiança
jamais conseguirá saciar a sede de futuro de uma sociedade.
"Que nunca falte água à sede dos professores. E que nunca mais lhes falte a confiança para bebê-la."
Por Gil Tazzi- Filosofia- Psicanálise e Educação
